Allan Dias Castro: uma entrevista com o poeta que dá voz ao verbo

“A poesia não é só o que eu faço, mas me faz ser quem eu sou”. Assim o poeta gaúcho Allan Dias Castro costuma definir a sua relação com a palavra, com o verbo.

Allan Dias Castro com o livro Voz ao Verbo

E foi literalmente, dando voz às suas palavras escritas que Allan ficou conhecido, para muito além dos seus poemas: o seu verbo virou forma de expressão também em vídeo.

Allan Dias Castro é um dos autores confirmados para a Feira do Livro 2020 de Santa Maria, e aproveitei a oportunidade de podermos divulgar por aqui a presença dele para bater um papo – que já estava há muito tempo nos planos do site.

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Allan falou de vida, de livro, de poesia e de inspiração para criar e escrever.

Confira abaixo.

Uma das passagens que você conta no Voz ao Verbo é a relação do seu pai com uma vontade de ser músico, que ele não levou em frente. Quando você se muda para o Rio, comenta que ‘realizou o sonho do seu pai’, que ele tinha há muitos anos. Você acha que isso é uma forma de honrar a história dele? 

Allan Dias Castro – Lembro da alegria do meu pai em saber que eu contaria parte da história dele no livro. Nos lançamentos do Voz ao Verbo, o sorriso estampado no rosto dele testemunhando minha realização, dava a certeza de que ele se enxergava ali. Mas não acredito que eu tenha realizado o sonho do meu pai, isso seria impossível.

Sempre digo que, por mais parecidos que fossem os caminhos, cada um teve que fazer o seu. Ele estava feliz com a minha trajetória e por ter sido a base de tudo. Realizar um sonho é algo pessoal e intransferível, e a vida leva por vários caminhos que muitas vezes desviam do que desejamos.

Aprendi a respeitar todas as escolhas feitas por meu pai sem julgar o fato de não ter levado o sonho em frente. Esse respeito, e a admiração pela trajetória de sucesso que ele construiu mesmo fora da música, foram fundamentais para que eu percebesse que ninguém poderia seguir o meu sonho por mim. Ter alcançado meu objetivo na presença do meu pai, e registrado o quanto ele foi importante desde o começo, deu, sim, um prazer a mais. Pouco tempo depois que ele faleceu, um amigo comentou: “Você honrou a história dele em vida”. Isso é realmente  reconfortante.

Como era a sua infância relacionada à leitura e à literatura? Você já escrevia antes? Tem alguma memória de como tudo começou?

Minha infância foi completamente influenciada por gibis, principalmente  da Turma da Mônica.  Desde cedo, minha mãe me ensinou o hábito da leitura da forma mais eficiente: pelo exemplo. Eu lia muito e também gostava bastante de ouvir histórias. Mais tarde, mas ainda criança, encontrei na escrita a minha forma de expressão dentro da família.

A cada data especial, todos já sabiam que meu presente seria um cartão com algo que escrevi para algum familiar. Como eles gostavam de receber meus textos, acabei ganhando cada vez mais confiança em mostrar o que escrevia para outras pessoas.

A escrita foi como encontrei meu lugar ali dentro de casa, e, depois, na vida.  Mais tarde, quando decidi de fato fazer da escrita a minha profissão, foi mais uma vez da minha mãe que recebi o incentivo que manteve na minha vida o hábito da leitura até hoje. Ela disse: “Quer escrever? Tem que ler.” Sigo lendo e escrevendo todos os dias da minha vida.

Qual foi o momento em que você percebeu que os seus sonhos estavam ‘dormindo na gaveta’ e era hora de ir atrás deles? Como foi o processo para chegar nessa afirmação: “a poesia não é só o que eu faço, mas me faz ser quem eu sou”?

Allan Dias Castro – O processo, sinceramente, não foi tão simples. Eu havia tido a coragem para sair da Faculdade de Direito, que foi a área que meus pais e avós escolheram, e mudar para publicidade, simplesmente por achar mais próximo do que eu realmente gostaria de fazer. Depois, como publicitário, tinha um emprego estável e trabalhava com muita gente boa.

A questão é que meu grande sonho sempre foi ter meu trabalho reconhecido pelos meus textos e músicas autorais. Na publicidade isso não era possível, mas acabei passando um tempo sem perceber que deveria ter a coragem de mudar de novo. Aí percebi que a busca pela realização no que eu realmente queria me deixava muito mais feliz do que as certezas herdadas na advocacia, ou meu comodismo como publicitário.

Essa afirmação de que a poesia me faz ser quem eu sou, vem do alívio de finalmente ter encontrado minha identidade. Nessa busca ficou claro pra mim que esse papo de seguir o sonho tem a realidade no meio do caminho. Mas, dessa forma, é a realidade que eu escolhi.

Quando começou a ideia de ‘dar voz’ ao ‘verbo’ e levar seus poemas como vídeos para o mundo?

Por muito tempo fui apenas letrista e precisava contar com outros parceiros para darem voz ao que eu escrevia. A ideia de falar poemas trouxe uma liberdade, e começou há mais de uma década, assim que cheguei ao Rio de Janeiro e encontrei os saraus de poesia. A maioria deles tem microfone aberto, qualquer pessoa pode chegar, aguardar sua vez, e falar um poema.

Virei frequentador assíduo e sempre que me apresentava às pessoas, perguntavam onde poderiam ler ou ouvir novamente as poesias. Comecei a fazer registros das apresentações ao vivo, mas não tinha tanta frequência. A vontade de ser o intérprete do que eu escrevia cresceu com o incentivo da minha esposa, Ana,  responsável pelas filmagens desde o primeiro vídeo. Assim nasceu o projeto de vídeos com poesia chamado Voz ao verbo, com um celular e muita vontade de dividir o que eu acredito em forma de poesia falada. A gente não tinha a menor noção do alcance que os poemas teriam.

Começamos em 2016 e levamos literalmente anos para construir um público significativo. Foi só em 2018 que a proporção  aumentou incrivelmente, saindo do nosso controle, virando um livro homônimo em 2019, e nos trazendo uma satisfação talvez ainda maior. Os primeiros vídeos, feitos ainda com o celular, estão no canal até hoje para me lembrar de que nada nasce pronto.

No Voz ao Verbo, a frase que acompanha o título fala de ‘Poemas para Calar o Medo’. Quais medos você consegue calar com seus poemas?

No processo até me sentir confortável fazendo os vídeos e dividindo meus textos com o público, sem dúvida os maiores medos que deixei pra trás foram o da exposição e, por incrível que pareça, o da sinceridade.

Quando parei de esconder atrás da caneta e passei a ser o veículo do que eu acredito, meus textos se tornaram cada vez mais pessoais, e isso trouxe uma liberdade grande com o tempo. Eu assumo o simples: tem um ser humano ali, igual a qualquer um que esteja assistindo do outro lado. Essa liberdade, junto à sinceridade que eu procuro a cada vídeo, acabam gerando uma identificação com as pessoas.

Tem uma frase do Fernando Anitelli, do Teatro Mágico, que diz: “descobri que a cada minuto tem um olho chorando de alegria, e outro chorando de luto”. Não tem como não lembrar da situação que você viveu recentemente, quando perdeu seu pai, e em seguida, veio ao mundo Serena. Como você entendeu essa dicotomia nesse momento?

Allan Dias Castro – No meu caso, os dois olhos choraram muito antes de perceber a alegria imensa que viria pela frente. Só com a chegada da minha filha Serena entendi que não se tratava de substituição. Não seria papel dela preencher vazio, ou trazer a felicidade de volta.

A vinda dela deu a sensação de que conseguiria transmitir tudo que aprendi com meu velho, ou seja, o sentimento não morreria. A partir dessa percepção, a palavra que define o meu momento é continuidade.

Seus poemas estão ligados à sua história, e isso fica bem claro no seu livro. Serena o inspira a escrever?

Sim, a chegada da minha filha foi como abrir uma porta com muitas possibilidades. A Serena acabou vindo antes do esperado, não deu tempo de chegar ao hospital e ela acabou nascendo em casa. Só essa experiência de ter participado do parto junto com minha esposa, e ter recebido minha filha nas mãos, já daria um livro. Fomos surpreendidos pela vida, e isso é muito inspirador. Certamente virá algo focado na palavra que respondi na pergunta anterior como resumo da minha vida atualmente: continuidade.

 

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Quanto em mim eu levo do meu pai, neste pai que eu me tornei? —- #continuidade #vidaSerena #paidemenina

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E o Reverb Poesia? Como nasceu a ideia de transformar em música seus poemas?

Há alguns anos escrevi uma pergunta que até hoje serve como parâmetro para minha realização profissional: O que você faz para viver, é o que faz com que você se sinta vivo? O Reverb Poesia é a minha resposta na prática. Minha paixão pela música é muito antiga, e, desde sempre, compor letras é uma atividade que me trouxe muita alegria, além de parceiros incríveis da nossa música, desde George Israel, do Kid Abelha, até o mestre da Bossa Nova Roberto Menescal.

O Reverb  é mais uma forma que encontrei para dar voz ao que escrevo, além do objetivo que compartilho com meu parceiro de banda, Tiago Corrêa, de prezar por encarar as letras como parte fundamental das composições.

Allan Dias Castro, poeta

Como você tem enfrentado esses períodos de distanciamento social, com redução das atividades presenciais? O que tudo isso te ensinou?

Eu comecei esse ano com o lançamento do livro Voz ao verbo em Lisboa, num evento que levou um mar de gente à livraria. Tudo dava indícios de um ano de correria maior do que 2019.  Quando a agenda de compromissos desmoronou, foquei em não perder tempo me lamentando ou relutando com a força da impermanência. Isso tudo me ensinou que nossos planos são como castelos de areia em frente ao mar e, inevitavelmente, trouxe à tona a seguinte questão: quantas certezas ainda vão desabar?

Sem esperar pela resposta, me antecipei aumentando minha presença nas redes sociais e me adaptei aos eventos e participações online, que vêm crescendo. Também criei novas possibilidades, como um curso online chamado Voz ao sonho, onde trago uma mistura de poemas autorais e referências literárias, destinado às pessoas que querem trazer para a realidade os seus sonhos que estão dormindo na gaveta.

Mas se houve um ganho maior nisso tudo foi, sem dúvida na vida pessoal. Estar em casa curtindo a reta final da gravidez da minha esposa, e até agora estar vivendo cada minuto dos primeiros meses de vida da minha filha, é de um valor imensurável.

Sua produção literária durante a quarentena aumentou? Como é criar nessas horas?

Allan Dias Castro – Sim, aumentou muito. Baixar a cabeça e trabalhar foi uma das maneiras mais recorrentes que encontrei para manter a sanidade diante de tanta coisa acontecendo. O resultado foi uma produção considerável que resultou em vários vídeos do Voz ao verbo de poemas com temas baseados nessas experiências atuais.

Como as mudanças na vida pessoal, principalmente a perda do meu pai, seguida pela chegada da minha filha, vieram concomitantemente a esse período de tanta incerteza no mundo, é quase uma necessidade jogar para o mundo futuramente um livro que traduza o turbilhão de emoções que tenho vivido nos últimos meses.

Você acha que de alguma maneira iremos aprender, enquanto indivíduos e sociedade, com o que estamos enfrentando?

Enquanto indivíduos, acredito que seja inevitável aprendermos algo depois de tudo isso, nem que seja inconscientemente. Acredito muito naquele papo de que só é possível mudarmos algo partir de nós mesmos.

Talvez essa mudança individual, por menor que seja, possa trazer algo expressivo mais adiante, nem que seja aprendendo com nossos enganos. Enquanto sociedade, escrevi um texto que tem um trecho que diz o seguinte: Quando todos fazem sua parte, fica fácil perceber que fazemos parte do todo. Essa simples percepção, mais do que minha vontade, talvez seja minha maior esperança para sairmos dessa um pouco melhores.

Allan Dias Castro participa da Feira do Livro de Santa Maria no dia 05 de outubro, às 19h, em live transmitida no Facebook e Youtube da Feira.

Compre o livro Voz ao Verbo clicando na foto abaixo:

Allan Dias Castro - Livro voz ao verbo

 

Liciane Brun

Jornalista em aprendizado constante e com a alma mesclada entre o amor pela cultura e tudo o mais que trouxer leveza. Encontrou na escrita um pouco de paz. Permite-se a clichês: amar e mudar as coisas interessa mais.

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