Uma psicóloga sem fronteiras no combate à Covid-19

* Entrevista publicada originalmente na revista  Società Magazine

Essa não é a primeira vez que a psicóloga santa-mariense Débora Noal se depara com uma situação de desastre provocada por uma doença que se alastra. Com experiência em dezenas de missões junto à organização Médicos sem Fronteiras, Débora conheceu mais de 40 países trabalhando em ajudas humanitárias.

Foi durante a epidemia do ebola, em 2012, na República Democrática do Congo, que ela vivenciou a situação que pode ser a mais parecida com o que presenciamos no mundo hoje:  naquela ocasião ela aprendeu a cuidar sem tocar, enfrentando um vírus com 70% de mortalidade.

Débora trabalhou em missões de ajuda humanitária, como no Haiti, por três vezes, depois de o país ser devastado por desastres ambientais; em conflitos étnicos no Quirguistão; durante a epidemia de ebola e em várias outras.

Hoje, convidada pela Fiocruz, Débora coordena um grupo de pesquisadores na linha de frente de cuidados com a atenção psicossocial e saúde mental de trabalhadores de saúde e da população. Confira a entrevista, publicada originalmente na edição de maio da revista Società Magazine (você também pode acessar aqui).

Você nasceu e passou boa parte da vida em Santa Maria. O que a cidade representa para você hoje?

Débora Noal –  Nasci em 1981, em Santa Maria,   vivi aí até os meus 17 anos. Toda minha base de cuidado, de afeto, de gentileza e dignidade, foi consolidada e tem suas raízes na cidade. Isso pra mim é muito importante. Tenho um reconhecimento grande pelo lugar de onde venho e orgulho de saber que é a minha terra, que tenho minhas características moldadas na estrutura que a cidade me permitiu, de alguma forma, trilhar. Fico feliz em saber que posso rodar o mundo, mas que minhas raízes estão aí. Poder conhecer outros lugares, trabalhar em mais de 40 países, conhecer gente de todo o mundo, mas ter sempre a certeza de que lugar é esse que eu venho, quais são os meus valores e minhas raízes.

Como está sendo o seu envolvimento com o trabalho na FioCruz? Como você conduz as ações na linha de frente com as equipes de pesquisadores de saúde mental e atenção psicossocial no combate ao Coronavírus?

Fui convidada pela Fiocruz para assumir com  o grupo de pesquisadores que estão puxando a linha de frente. Meu papel é puxar a linha de frente na atenção psicossocial e  saúde mental. Pensar estratégias, sempre ancoradas em evidências científicas, que auxiliem a dar suporte aos gestores, que vão conformar as políticas públicas tanto no Ministério, quanto nos Estados e municípios, mas também para auxiliar os trabalhadores que estão na linha de ponta. A estratégia foi montada com base na pirâmide do IASC, que  informa quais os níveis de informações e ações que precisamos implementar rapidamente em uma situação de pandemia. Esse tem sido meu trabalho. Coordeno um grupo de 10 pesquisadores nacionais e internacionais para saúde mental e atenção psicossocial em situações de pandemia. Fazemos a inter relação com todos os pesquisadores que trabalham na China, na Bélgica, Espanha e Itália, para saber o que vem sendo produzido em termos de cuidado para população, e para os trabalhadores em termos de estratégia de gestão. A partir daí, criamos estruturas que permitam aos gestores assumir a linha de frente. Parte do meu trabalho é fazer a formação desses profissionais, que trabalham principalmente com o Sistema Único de Saúde, criando estratégias de intervenção e atuação. Já temos pelo menos 13 cartilhas lançadas com informações técnicas, e todas ancoradas em evidências científicas.Temos  cerca 1700 pesquisas sendo analisadas, e dessas, elegemos 50 que poderão ser adaptadas ao contexto brasileiro, com a nossa cultura e políticas públicas.

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Você tem experiências como a epidemia do ebola no Congo, que, não permitiam o mínimo contato com as pessoas, e, isso mexeu bastante com você. Como trabalhar esse cuidado sem o toque, de outra forma? 

Talvez a vivência que mais me remete, muito rápido, à minha história, quando penso na Covid-19, é, sim, meu trabalho na epidemia de Ebola na República Democrática do Congo. Foi uma vivência muito forte, principalmente pelas dificuldades sociais, lembrando que à época havia uma letalidade muito alta, com mortalidade de quase 70%. Essa é uma vantagem que temos no coronavírus, que tem uma letalidade baixa, embora a possibilidade de contágio muito alta. De várias missões que participei, de tudo o que eu vivi nesses últimos anos, a epidemia de Ebola foi talvez a que tenha mais tirado mais o meu chão. Ali, precisei reaprender a fazer uma escuta clínica sem utilizar meus cinco sentidos, que normalmente é o que eu mais utilizo quando trabalho nos grandes desastres: o que vejo, o que toco, o que eu sinto, o meu olfato. Nas epidemias de ebola, como os equipamentos de proteção individual são muitos (mais de 11 itens sobre o corpo), nenhum dos cinco sentidos está completamente atuante. A visão fica dificultada pelo óculos, as máscaras dificultam o olfato, usamos duas luvas sobre as mãos, o tato é muito prejudicado. Precisei reinventar minha forma de comunicar com os pacientes. Estava em um país que, além de tudo, era outra língua. O que mais mexeu comigo é que fiquei muitos meses sem tocar em ninguém. Aqui no Brasil, em isolamento, normalmente estamos com a família, ou com alguém conhecido, já que ainda não estamos em isolamento total, e sim em distanciamento social. Isso faz uma grande diferença. Como passei muito tempo sem tocar ninguém, quando retornei ao Brasil, voltei muito preocupada, pois estava chegando em um país onde ninguém havia sido infectado. Minha preocupação não foi estar infectada, e sim infectar os outros. Fiz meu próprio auto isolamento durante um tempo. Me tocou muito a primeira vez que as pessoas tentaram se aproximar de mim, e eu tentava explicar os riscos que elas corriam. Outra coisa que me marcou foi o estigma. Eu fazia doutorado na época, em 2012. E quando chegava na UNB, onde tinha as aulas, as pessoas se afastavam de mim, me deixavam sozinha. Nessa hora me dei conta do estigma e do medo humano.

É natural esse medo?

Óbvio que como psicóloga entendo o medo das pessoas, mas como ser humano é muito difícil ser rechaçado. Quando você pensa que tudo que você queria era ser cuidado, uma palavra de carinho.Mas você ver que todo mundo se afasta dá uma dor grande. Hoje, quando vejo profissionais da Covid-19  rechaçados no condomínio onde moram, ou recebendo bilhetes nos seus carros, pedindo para que essas pessoas não morem mais ali, me conecta direto com a dor que também senti. Não só como profissional, mas também como ser humano, eu consigo entender. É muito difícil arriscar nossa vida pra cuidar de alguém, e no momento em que a gente também precisa ser cuidado, não ter. Por isso, uma palavra de incentivo, de carinho para um profissional de saúde muitas vezes é um pagamento muito maior do que o salário que a gente recebe. Esse é um ponto importante: ajudar enquanto sociedade e enquanto comunidade.

A sua bagagem, com vivência em dezenas de países que passaram por desastres e epidemias, ajuda, de certa forma, a encarar o que vivemos hoje? Quais aprendizados você pode absorver dessa vivência para encarar a situação atual?

Parte dos aprendizados que trago é a percepção de como o ser humano é capaz de se reinventar. E ele se reinventa de uma forma fenomenal. Como somos capazes de reenquadrar nossos planos e projetos, reconfigurar o medo, a confusão, a tristeza, e transformar, de alguma forma em altruísmo e solidariedade.Poder se conectar com o outro e de fato cuidar das pessoas. Talvez esse seja o maior aprendizado que levo comigo nos últimos 12 anos na humanitária internacional. A capacidade que o ser humano tem de se reinventar, e em moldes muito melhores. Muitos artigos científicos falam das pessoas traumatizadas, de estresse pós-traumático, e eu posso dizer que o número de pessoas capazes de se reconectar, se reinventar como ser humano e pensar o mundo com bases mais sólidas, tem sido muito maior, na minha percepção empírica, do que de fato o número de pessoas adoecidas. Esse é um fato: pensar a capacidade humana e como a gente faz para reverter dor em sofrimento, em cuidado, em humanidade e alegria, de certa forma compartilhar essa sensação de pertença.

Depois de passar por tantos episódios como uma psicóloga sem fronteiras, como você enxerga o que está acontecendo hoje no Brasil e no mundo? E como fazer para nos reinventar, humanamente falando?

Eu enxergo como uma forma de nos reinventarmos de fato como humanidade, não só mais como ser humano. Precisamos ressignificar todas as formas de contato, de reaproximação, de cuidado e de afeto. Para mim, a única forma de fazermos isso de uma maneira sólida é fazendo um chamado para o altruísmo e a solidariedade. Para eu olhar para o outro como uma extensão de mim mesmo… Fazer o mundo com bases muito mais sólidas, onde as estruturas materiais não se sobreponham de forma alguma ao afeto humano. Que possamos pensar isso de uma forma mais concreta. Provavelmente a maior parte de nós terá um poder aquisitivo muito menor. E agora é hora de pensar em como a gente faz isso de forma compartilhada. Não apenas de como eu faço para adquirir de novo aquilo que eu gostaria de adquirir. Mas de olhar para o lado e pensar: como a gente reconfigura esse mundo? A gente reinventa ele. De uma forma muito mais afetiva e cuidadosa.

Liciane Brun

Jornalista em aprendizado constante e com a alma mesclada entre o amor pela cultura e tudo o mais que trouxer leveza. Encontrou na escrita um pouco de paz. Permite-se a clichês: amar e mudar as coisas interessa mais.

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