Zack Magiezi: o universo feminino pela sensibilidade de um homem

Foto: Ronald Mendes

O que faz um homem entender e decifrar certas questões que envolvem os sentimentos femininos? Essa foi uma das perguntas que o poeta e escritor Zack Magiezi   precisou responder durante um bate-papo na Feira do Livro de Santa Maria.

O fato é que o que instigou o escritor paulista a explorar o universo feminino foi uma situação que poderia despertar o avesso do caminho que tomou. É que, muitos filhos que veem seus pais agredindo suas mães, poderiam tomar por referência a violência física e a agressividade ao invés de transformar o que sentem em poema. Mas, aos dez anos, depois de ver o seu pai bater em sua mãe Zack só sabia sentir uma coisa: o quanto amava aquela mulher, o quanto se orgulhava dela e o quanto a queria por perto. Outros fatores fizeram o escritor de 36 anos, que contou sobre isso durante a Feira do Livro em Santa Maria, se interessar pelo universo feminino.

“Cresci no meio de mulheres. Tive muitas delas na minha vida: minha mãe, minha avó, minhas tias, todas muito próximas, muito mais do que as figuras masculinas. Acho muito enigmática a maneira como faziam tantas coisas e mesmo assim conservavam uma certa sensibilidade para o mundo, algo que falta para os homens. Eu via todas as coisas pelas quais minha mãe e minha avó passaram e achava o máximo”, contou Zack em resposta a uma das dezenas de perguntas que respondeu a leitores na praça.

Antes de ser escritor Zack já metamorfoseou muito. Formado em Administração, Teologia, História e em Letras, o autor já chegou a trabalhar como mecânico, artista de rua, vendedor de peixes e até vendedor do Boticário. E foi escrevendo que se encontrou.

O fato de conseguir decifrar muito dos sentimentos femininos fez de Zack um fenômeno que começou nas redes sociais. Com uma máquina de escrever que recebeu de um amigo em troca de uma dívida, o escritor começou a fazer seus pequenos poemas, fotografá-los e postá-los no Facebook e Instagram.

O sucesso foi tão imediato que em pouco tempo uma editora se interessou pelo seu trabalho e convidou para publicar um livro. Foi assim que nasceu “Estranheirismos”, seu primeiro título. Em 2017, veio “Notas Sobre Ela”, mais uma coleção de sensíveis poemas.

Entre perguntas sobre poesia, literatura, internet, universo feminino, tatuagens e memória, uma das situações mais inesperadas foi a atenção e o carinho que o escritor direcionou a uma leitora santa-mariense que o acompanha desde 2014 na internet. A pedagoga Greice Nunes, 36 anos, recebeu em mãos do escritor um livro, que Zack trouxe especialmente de presente a ela.

“ Conheci ele aleatoriamente no Instagram e me chamou a atenção uma postagem. Eu segui e ele me seguiu de volta. A partir daí começamos a conversar. Eu não imaginei que ele faria uma supresa dessas. Adorei, esse momento está sendo muito especial”, comentou a leitora, que ganhou do escritor o livro Um útero do tamanho de um punho”, de Angélica Freitas.

Greice conheceu pessoalmente o autor, com quem conversa desde 2014, e ganhou um livro de presente de Zack

Ao fim do bate-papo, Greice pôde conhecer pessoalmente o autor, que abraçou os leitores e autografou seus livros.

Abaixo, alguns trechos de falas de Zack durante o bate-papo:

Palhaço

“A coisa que mais me orgulho de ter trabalhado é na arte do palhaço (…) O palhaço é uma coisa muito séria, por mais estranho que isso possa parecer. Eu tomei um belo pé na bunda de uma namorada e fiquei muito mal. Duas coisas que me salvaram: começar a escrever e o palhaço. O palhaço não é cômico. A ideia principal é causar um estranhamento. A característica do palhaço é mostrar o que ele tem de defeito para as pessoas rirem. Coisas que nós costumamos esconder, o palhaço faz questão de mostrar.  Na escrita é a mesma coisa. E não é fácil porque estou mostrando quem eu sou. Eu mostro as coisas que estão dentro de mim, que nem sempre são bonitas e alegres para que as pessoas possam me enxergar e talvez enxergar a elas mesmas.”

Espelho

“Quando você se identifica com o texto é como quando alguém coloca um espelho na tua frente e te obriga a se olhar. Você não se olha nos olhos, por 30 segundos. E o texto tem esse poder de fazer isso.,de fazer com que a gente se olhe. Isso é fantástico”.

Solitude e solidão

“Solitude é diferente de solidão. Com a solitude você tem o desejo de estar sozinha. Já a solidão é
quando temos o desejo de ter alguém e não temos. As pessoas tem dificuldade de estar sozinho. Quem se sente mal em estar sozinho está em péssima companhia.”

Leitor e escritor

Existe uma teoria que fala que não existe o leitor, existe um outro escritor. Porque a partir do momento em que você lê, você interpreta do seu jeito e isso está sendo reescrito”.

Enigma feminino

“A figura feminina é um enigma. Vocês dormem sendo uma mulher e acordam sendo outra. Isso me fascina muito. Nós homens somos sem graça, não temos muito escopo pra explorar. E as mulheres são muito fascinantes. Eu escuto muitas histórias, muita gente me procura pra desabafar (e desabar também) e isso acaba me alimentando. É como uma troca. Me dão as suas histórias pra talvez me inspirar. Mas fico bastante lisonjeado. Não tenho a pretensão de entender uma mulher. É sempre fascinante . Existem muitas mulheres dentro de uma mulher, muitas nuances, muitos lugares a serem explorados. Nunca vou assumir a alcunha de dizer que entendo. Pra mim é sempre novo.”

Liciane Brun

Jornalista em aprendizado constante e com a alma mesclada entre o amor pela cultura e tudo o mais que trouxer leveza. Encontrou na escrita um pouco de paz. Permite-se a clichês: amar e mudar as coisas interessa mais.

Inscreva-se

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *