Festival de Tunas: música, dança e história ilustram uma tradição iniciada no século XII em Portugal

Foto: Alberto Queirós

Quando se está em um novo país, recebe-se muitas dicas de lugares a visitar, de sabores a experimentar, de histórias a conhecer. Por indicação, fui ao Teatro Circo, no centro de Braga Portugal, para assistir ao XXVIII FITU Bracara Augvsvta, um Festival de Tunas Universitárias.

Mas, o que são tunas? Claro que, antes do evento, pesquisei um pouquinho o assunto. Na definição estava “Tuna é um agrupamento musical, caracterizado por ser constituído principalmente por cordofones (instrumentos de corda). A tuna pode ser de natureza popular ou estudantil”. Certo! Mas isso não explicou muito o que eu veria no palco do teatro.

O que eu vi e ouvi? Vozes, instrumentos populares e clássicos e danças em perfeita harmonia. Letras originais de canções portuguesas ou paródias que falavam do dia a dia nas aulas das universidades. E isso tudo em ritmos alegres que convidavam o público a interagir com as apresentações. Em alguns momentos, os grupos me lembraram os festivais de danças tradicionais gaúchas, onde jovens orgulhosos mostram a arte e a cultura do seu estado. Nesse caso aqui, a cultura nacional.

Para ilustrar um pouquinho dessa incrível experiência, fiz um vídeo de uma das apresentações e para entender melhor essa tradição das Tunas que reúne jovens, arte, história e cultura, conversei com um dos coordenadores do XXVIII FITU Bracara Avgvsta, João Barbosa, Magíster da Tuna Universitária do Minho.

Leve-se: O que são Tunas?

João Barbosa – A origem das Tunas não está documentada com precisão, pelo que se pensa que surgiram com mais relevo a partir dos séculos XVIII e XIX na Espanha. Mas os seus primórdios remontam aos séculos XII e XIII, quando na Espanha e Portugal surgiram os Sopistas – grupos de estudantes que se escapavam dos internatos à noite para irem para as tabernas cear e, mais tarde, para tocar. Estes serão os verdadeiros ancestrais das tunas. Atualmente, as Tunas Universitárias são como pequenas famílias de jovens (e não só) que procuram algo mais do que participar nas aulas e completar um curso. Para além do foco principal, a música, as Tunas proporcionam experiências e permitem desenvolver capacidades pessoais e profissionais que não se aprendem dentro de uma sala de aula, quer seja pelo contacto com o público a partir de um palco, pela convivência com elementos mais velhos, ou com a negociação e conversação com entidades e instituições.”

Foto: Alberto Queiros

Quem pode participar? As Tunas sempre estão relacionadas a uma instituição de ensino?

João Barbosa –A maioria está associada a uma instituição específica. Depois, dentro destas, existem as que se regem pela regra de que quando se deixa de ser estudante, deixa-se de ser tuno, enquanto há outras (grande maioria) cuja filosofia é “Uma vez Tuno, Tuno para Sempre”.

Poderia falar sobre o traje (uniforme), as capas?

João Barbosa – O traje da Tuna Universitária do Minho é baseado no traje académico da Universidade do Minho, também conhecido por traje do tricórnio (nome que vem do chapéu que lhe pertence). O Traje Académico da Universidade do Minho é seiscentista, foi recriado a partir dos azulejos existentes na reitoria da Universidade do Minho. Era o traje usado pelos estudantes do colégio S. Vicente de Paulo, tendo sido atribuída uma permissão do Rei, aos estudantes deste colégio, para trajarem como os de Coimbra (que, nessa altura, também o usavam). A Tuna Universitária do Minho tem como cor base o vermelho, que é a cor da Universidade.

Foto: Alberto Queirós

Quantas tunas participaram do Festival e qual o objetivo desse evento?

João Barbosa – Na competição, participaram 6 tunas:
anTUNia – Tuna de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (Almada)
Desertuna – Tuna Académica da Universidade da Beira Interior (Covilhã)
TAFDUP – Tuna Académica da Faculdade de Direito da Universidade do Porto (Porto)
Tuna de Medicina do Porto (Porto)
Tunídeos – Tuna da Universidade dos Açores (Ponta Delgada, Açores)
Tuna de Empresariales de Barcelona (Barcelona, Espanha)
Tuna Universitaria de Maastricht (Maastricht, Holanda)

E marcaram presença ainda sem competir, mais 3 grupos. Apesar do FITU Bracara Avgvsta ser um festival de carácter competitivo, desde o início foram traçados objectivos para que a competição nunca se sobreponha ao convívio e companheirismo entre as tunas participantes. E, por isso, um dos prémios atribuídos mais importantes é o prémio Tuna Mais Tuna, que distingue a tuna com melhor espírito e companheirismo fora de palco, e que maior animação trouxe às ruas e ao público da cidade de Braga. Dentro do espectáculo, são atribuidos prémios com diferentes critérios: Melhor Solista, Melhor Pandeireta, Melhor Bandeira e Melhor tema Instrumental. O júri é composto por várias pessoas com ligação ao panorama musical e cultural da academia, cidade, região, ou, até mesmo, nacional.

Foto: Alberto Queirós

O que elas representam para a cultura e o folclore português?

João Barbosa – Atualmente, as tunas portuguesas representam um papel fundamental na divulgação da cultura e tradições portuguesas, ainda que isto não esteja bem visível. O contacto gratuito com a música popular e com instrumentos e cordofones bem tradicionais faz com que as tunas portuguesas sejam um dos principais meios de ensino e preservação desta cultura. Um jovem de fora do distrito que vem estudar para Braga, muito provavelmente nunca ouviu falar da viola Braguesa e pouco conhece do Cavaquinho. Numa tuna, terá a oportunidade de descobrir e aprender estes instrumentos e, assim, dar continuidade à perpetuação dos mesmos ao longo de gerações.

Michele Dias

Jornalista, formada pela UFSM, especialista em Comunicação e Linguagem pela Unifra. Com experiência em televisão, aventura-se agora no mundo digital. Profissional em transformação, ser humano adaptando-se às mudanças, abrindo-se ao novo, mas sempre com a mesma paixão pela escrita, pela família e pelas coisas boas da vida

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Comments (1)

  1. Amiga querida! Valeu participar contigo deste evento.. tinha pesquisado horrores sobre ele! Aprendi muito contigo Michele; obrigada!

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