Cromañón: 15 anos em memória viva e fotográfica

Dezembro é um mês de reunir a família, os amigos, celebrar a vida e a esperança de um novo ano melhor. Por isso, quando pensei em fazer este texto, me bateu uma dúvida se deveria escrevê-lo e publicá-lo nesta época. Depois de refletir um pouco, me convenci que há tantas famílias que não podem passar com seus entes queridos pois o perderam em um incêndio como a das boates de Santa Maria e de Buenos Aires e que, precisamos SIM falar sobre as tragédias sempre. Para que não esqueçamos, para que se faça justiça, e para que não se repita.

Em 2019, vim morar em Buenos Aires. Coincidência ou não, mudei-me para a mesma rua que, há 15 anos, foi o local do incêndio em Cromañón. A tragédia dos hermanos acabou ficando mais conhecida por nós, brasileiros, pelas semelhanças das circunstâncias que ocorreram na Kiss.

Na noite de 30 de dezembro de 2004, durante um show de rock da banda Callejeros, por volta das 22h50min, um dos assistentes do espetáculo acendeu um artefato pirotécnico, que iniciou o fogo em uma tela de plástico, tipo sombrite, perto do teto. Rapidamente o fogo atingiu a espuma de revestimento altamente inflamável e tóxica. Ao perceberem o incêndio, as pessoas começaram a evacuar o local. Mas as saídas tinham irregularidades, o que dificultou deixar o local. Na noite, havia mais de 2.811 pessoas dentro da boate, quando a capacidade era de 1.031. Com o corte de luz, a superlotação e os gases tóxicos, muitos não conseguiram sair, asfixiaram-se com o produto dos materiais inflamáveis. O resultado foi a morte de 194 pessoas e 1.432 feridos.

O “Massacre de Cromañón”, como eles chamam aqui, teve como consequência importantes mudanças políticas e culturais, muito em função da mobilização pública, encabeçada pelo coletivo de familiares e sobreviventes do incêndio. Na época, o prefeito da Cidade Autônoma de Buenos Aires, Aníbal Ibarra, foi destituído do cargo, por ser considerado o responsável político da tragédia. Em relação às consequências culturais, o incêndio conscientizou a sociedade sobre o estado e a segurança dos bares, boates e locais destinados aos espetáculos musicais.
Todos os condenados já deixaram a prisão e a maioria cumpriu a sentença que foi determinada pela justiça. O líder da banda Callejeros foi o último a sair da cadeia. Omar Chabán, ex-gerente da boate, morreu em prisão domiciliar e a única situação pendente é a de um inspetor condenado por cobrar suborno.

EXPOSIÇÃO

Para marcar a data, uma exposição inaugurou no dia 5 de dezembro para relembrar o que ocorreu em 2004. A exposição Cromañón 15 anos busca, através de fotos, relatos em vídeo e uma maquete da boate, fazermos refletir sobre uma tragédia que poderia ter sido evitada. Nas paredes brancas de uma sala no subsolo do Centro Creativo El Obrador, localizado na mesma rua do incêndio, imagens de mães inconsoláveis e sobreviventes que até hoje sofrem com os traumas físicos e psicológicos daquela noite fatídica. As imagens nos deixam com o coração apertado e é impossível não ver semelhanças com a tragédia da boate Kiss. É como se fosse um filme (muito triste) que a gente já assistiu (veja as fotos ao final do texto).

MURAL

Depois de ir na exposição, fui buscar informações da localização da boate, já que também era na mesma rua. Peguei o metrô e desci na Plaza Miserere, uma praça que conecta uma infinidade de transportes públicos: ônibus, metrô e trem. Além disso, é o coração de Once, bairro popularmente conhecido por reunir muitos lojistas de roupas baratas. O Google Maps me levava para uma esquina dessa praça. Ao chegar lá, vi um prédio antigo de três andares coberto de artes coloridas e frases clamando por Justiça. Por algum tempo até pensei que ali era a boate, mas duas frases escrita nas paredes me diziam o contrário: “Acá no es Cromañón” e “Queremos a Cromañón como un espacio para la memoria”.

Fato é que este local, talvez por ter maior visibilidade, foi escolhido para servir de mural, assinalando que Cromañón é ali perto. As manifestações artísticas também deixam o recado que os familiares querem que um memorial em homenagem às vítimas e sobreviventes da tragédia seja erguido no mesmo local onde foi a boate.

SANTUÁRIO

Ao atravessar a rua, nos deparamos com um santuário. No local, painéis com a fotografia, nome e idade das 194 vítimas do incêndio nos fazem ter uma ideia da dimensão de vidas que foram interrompidas pela impunidade. É impossível controlar as lágrimas ao olhar os rostos dos jovens, a maioria na faixa dos 20 anos. Mais comovente ainda, é ver um bebê de 10 meses e outras criança de 4, 8, 9 e 10 anos se somando às vítimas.

Outra cena impressionante é uma árvore de Natal com a foto das vítimas penduradas como se fossem bolinhas natalinas, já que a tragédia ocorreu logo após a data.

Enquanto eu fazia fotos do prédio da esquina, um argentino me parou e disse: “Cromañón não é ali não, acho que é ali atrás. Lá também tem coisas escritas nas paredes”. Foi então que descobri que o local onde ocorreu o incêndio era mais pra frente.

A BOATE

Na realidade, a rua que abrigava a boate, depois de passar 10 anos fechada, foi convertida em um passeio de pedestres. O local começa com o Santuário e se estende por toda a fachada das ruínas de Cromañón.

O prédio da boate está com as entradas lacradas. Há palavras de revolta, indignação e pedidos por justiça estampadas por toda a fachada do imóvel, o que me remeteram, de imediato, ao local da Kiss. Algumas pessoas passam com olhos curiosos. Outros param por alguns segundos e depois seguem seu caminho. Sentei-me em um banco na frente da boate, em uma sombra e me pus a refletir sobre uma frase que está impressa em vermelho e se repete várias vezes: “Cromagnón nunca +”. Infelizmente, em 27 de janeiro de 2013, a tragédia também bateu na porta de Santa Maria. Naquela noite , um incêndio provocado por um artefato pirotécnico deixou 242 mortos e mais de 600 feridos. É a maior tragédia não natural do Rio Grande do Sul.

Outra coisa que chama a atenção é o cartaz com a #cromañonnosetoca, movimento criado pelos familiares e amigos das vítimas e sobreviventes da tragédia que exige a expropriação do prédio da boate para criar um lugar de memória. Em abril deste ano, o judiciário entregou as chaves ao proprietário do imóvel Rafael Levy, penalmente responsável pelo incêndio, que já pintou as paredes e levou os pertences das vítimas. Fato que, obviamente causou revolta do Movimento Cromañón.

ENDEREÇO DA REPÚBLICA CROMAÑÓN:
Bartolomé Mitre, 3060, bairro Once

MEMORIAL

Registros feito duas semanas antes da inauguração do memorial

Havia lido na internet que um memorial estava sendo construído a quatro quadras do local da tragédia. Cheguei no Parque de La Estación e, de longe, já avistei um farol todo em metal. Dei a volta no espaço ainda com tapumes e conversei com dois simpáticos pedreiros. Ao questionar-los, se a obra havia sido consentida pelos familiares, eles me garantiram que aquela era uma homenagem dos vizinhos do bairro e que os familiares estariam de acordo. Além disso, o local que abriga o memorial é um espaço que foi revitalizado faz pouco tempo e oferece mais segurança do que o endereço em que ocorreu o incêndio.

Com o custo de $ 21.636.297 pesos, a obra tem 25 metros de altura. Ao lado do farol, terá uma fonte e o nome das vítimas escritas em uma placa de mármore.

MAIS SOBRE A EXPOSIÇÃO

 

 

 

 

Data: de 5 de dezembro de 2019 a 30 de março de 2020
Horário: De segunda a sexta, das 10h às 19h
Entrada: Grátis
Endereço: Bartolomé Mitre, 1670, bairro San Nicolás

Rafael Guerra

Publicitário (sempre no meio de jornalistas). Especialista em Cinema. Alguém que enche a alma de curiosidade, vaga-lumes e estrelas. Aprendeu a amar a sétima arte nas madrugadas do Corujão e trabalhando em videolocadoras. É o louco do torrent, Netflix e do HD cheio de filmes.

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